Não, a Galiza não se está a tornar "extrema":
Uma observação empírica de 50 anos (e 2.000 de história)
O clima atlântico da Galiza continua a ser o mesmo. O que perdemos foram os meios de proteção natural que tínhamos. Esta é a prova.
🇵🇹 Prólogo: Esta Conversa Também Vos Pertence
Para um galego do sul, o aeroporto internacional de referência não é o de Madrid, é o do Porto. Não vamos às feiras a Castela, vamos às feiras de São Tiago de Besteiros, à Feira de São Mateus em Viseu, ao Mercado do Bolhão. O Porto é a grande cidade mais próxima para uma escapadela. Viana do Castelo está a um passo. Braga está mais perto que León.
Há uma linha no mapa, é certo. Mas a realidade – a do clima que nos molha, da terra que pisamos, das florestas que perdemos, da língua que quase sussurramos – grita que somos o mesmo povo. E, de facto, durante séculos, assim foi.
É por isso que este artigo, nascido de conversas numa hamburgueseria de Santiago, não podia ficar apenas em espanhol. Ele tinha de ser dito também em português. Porque esta conversa também vos pertence.
Quando em Lisboa ou no Algarve falam de "anomalias climáticas" no norte, estão a falar de vós. Do vosso Minho, do vosso Douro Litoral. Quando alarmistas pegam num verão quente no Porto e o chamam de "extremo", estão a ignorar a mesma história que ignoram aqui: a de um clima atlântico, teimoso e imperturbável.
Partilhamos o mesmo orvalho (orballo), as mesmas preocupações com os eucaliptos que substituem os carvalhos (carballos/carvalhos), a mesma memória de um fresco que já foi mais comum. E, portanto, partilhamos a mesma necessidade de fazer ouvir uma voz de sensatez, alicerçada na observação e na história, e não no alarme de um telejornal.
📰 O Golpe do Jornal
No nosso local, como em muitos bares de bairro, temos uma pilha de jornais. Daqueles de papel, de alcance nacional e local. E cada manhã, fiéis ao seu ritual, entram os mesmos clientes. Não vêm só pelo café quente (que também), vêm pelo hábito, pela conversa, por ler as notícias com o primeiro gole do dia.
Levamos meses em que, literalmente, não parou de chover na Galiza. E com a chuva, na televisão e nesses mesmos jornais, chegaram uns títulos que, com todo o respeito, roçam a ignorância absoluta sobre o que é viver aqui. Títulos curtos, urgentes, sem nenhum estudo das causas que há por baixo. Puro curtoprazismo visual.
"Aqui agora chamam-lhe anomalia climática". Essa foi a capa repetida. A mesma que tínhamos à frente, sobre o balcão, há uns dias.
Foi então que alguns desses bons clientes matinais –gente de diversas idades, incluindo alguém que já passa dos 80 e leva toda uma vida aqui– começaram a falar do tema. Não foi uma queixa. Foi uma conversa com perspetiva histórica, com memória de como eram as coisas, enquanto lá fora caía o mesmo orvalho de sempre.
Esta reflexão, nascida num balcão de bar, com o jornal que fala de "anomalias" como testemunha muda, é a que quero desenvolver aqui. Porque chamar anomalia à nossa normalidade não é só um erro. É apagar a memória do lugar.
Com a permissão dos participantes nesta emocionante conversa de balcão de bar, vou desenvolver o que aqui se discutiu. Pode conhecer mais sobre nós aqui.
📑 Índice de Conteúdos
- Introdução: O Fastio do Alarmismo
- Evidência 1: Os Engenheiros Romanos Já o Sabiam
- Evidência 2: A Arquitetura Popular Não Mente
- Evidência 3: Muita Chuva, Poucas Inundações
- Evidência 4: As Testemunhas Literárias
- Evidência 5: O Dado Objetivo: Santiago desde 1866
- Evidência 6: Design Urbano Medieval
- O que SIM Mudou: Os Carvalhais Abatidos
- O que SIM Mudou: A Invasão do Eucalipto
- Conclusão: A Ironia Final
🌫️ Introdução: O Fastio do Alarmismo
No grupo que nos reunimos aquela manhã havia gente de diversas idades: desde os 50 anos até bem passados dos 80. Com perspetiva de mais de oito décadas de vida aqui, cobrindo desde os anos 40 até hoje. Havia também um camionista que se passa a vida entre Portugal e a Galiza, precisamente carregando madeira de eucalipto — testemunha direta da transformação em ambos os lados da fronteira. A conclusão foi unânime: vimos mais dias cinzentos e de chuva do que de céu azul despejado. Essa é a verdade sem ornamentos.
Ver termos como "chuva extrema na Galiza" ou "verão mais quente do século" na televisão produz uma mistura de incómodo e repugnância. É uma falta de respeito ao senso comum acumulado por gerações.
Quem escreve esses títulos, evidentemente, não é daqui. Esta reflexão sim o é. Não é uma negação, é uma observação.
E a observação é simples: O clima atlântico da Galiza não mudou. O que mudou foi a paisagem que nos protegia dele.
🏛️ PRIMEIRA PARTE: A Evidência Imutável
O que NÃO mudou (6 provas históricas)
1. Os Engenheiros Romanos Já o Sabiam: Pontes, Calçadas e Drenagens
Se há algo que os romanos sabem fazer bem, é construir para a eternidade. E quando construíram na Galiza, fizeram-no sabendo exatamente com o que se enfrentavam.
Os Talha-mares das Pontes
As pontes romanas galegas têm algo característico: talha-mares. Essas saliências em forma de cunha ou proa que "cortam" a água. Exemplos claros:
- Ponte Maceira (sobre o rio Tambre): Talha-mares pronunciados para resistir às cheias atlânticas.
- Ponte Romana de Ourense (sobre o Miño): Desenhada para suportar o caudal de um dos rios mais caudalosos da Galiza.
- Ponte do Porto (Lugo): Com contrafortes especialmente reforçados.
A sua função é dividir o ímpeto de águas torrenciais e os troncos que arrastam as cheias. Em regiões de clima mais calmo, muitas pontes romanas não os precisam. As que se construíram aqui, sim.
As Calçadas Romanas: Vias Pensadas para a Água
As vias romanas na Galiza (como a Via XIX que unia Braga com Astorga) têm um design específico:
- Valetas laterais profundas: Para evacuar a água da chuva constantemente.
- Elevação central (abaulamento): O centro da calçada é mais alto que as laterais para que a água não se acumule.
- Camada de drenagem sob o empedrado: Gravilha para filtrar a humidade permanente do solo.
Não se constrói assim para chuvas esporádicas. Constrói-se assim porque a chuva é a norma.
As Telhas Romanas: Tegulae e Imbrices
As telhas romanas encontradas em escavações na Galiza (como em Aquis Querquennis ou em Lugo) têm um design de dupla camada: tegulae (planas) e imbrices (curvas). Este sistema está otimizado para evacuar grandes volumes de água rapidamente. Em zonas mediterrânicas mais secas, por vezes bastava um sistema mais simples.
Conclusão: Construíram para a normalidade húmida atlântica, não para uma anomalia. Os romanos não esperavam um evento extraordinário. Esperavam o habitual.
2. A Arquitetura Popular Não Mente: O Espigueiro
O hórreo (ou espigueiro) é um tratado de climatologia em madeira e pedra. Não é preciso ler o manual: o seu design diz tudo.
- Elevado sobre pilares (tornarratos): Para evitar a humidade do solo.
- Fendas de ventilação nas paredes: Para evitar o bolor num ar permanentemente húmido.
- Telhados com beirais pronunciados: Para que a água da chuva não molhe os muros.
É uma resposta arquitetónica aperfeiçoada durante séculos a um problema constante. Não se constrói assim para algo esporádico. Constrói-se assim porque a humidade é a norma.
3. A Terra que Chupa Mais Água que um Canteiro um Sanduíche à Hora do Almoço
Há uma expressão local que resume tudo perfeitamente:
"Aqui a terra chupa mais água que um canteiro um sanduíche à hora do almoço."
O solo galego é ácido e esponjoso. Tem uma capacidade de absorção hidráulica impressionante. E não é casualidade: está desenhado por milénios de chuva para drenar e filtrar.
O Paradoxo Galego: Muita Chuva, Poucas Inundações
Aqui está o dado-chave que ninguém menciona:
- Santiago de Compostela: Uns 1.700-1.900 mm de chuva por ano.
- Valência ou Alicante: Uns 400-500 mm por ano.
A Galiza recebe entre 3 e 4 vezes mais chuva anual que o Mediterrâneo. E no entanto, as inundações catastróficas por "gota fria" não ocorrem aqui.
A Experiência Mental: 200mm em Umas Horas
Façamos a comparação justa: mesmo volume de água, mesmo tempo.
No Mediterrâneo: Quando caem 200 mm em umas horas, o resultado é catastrófico. O solo argiloso, seco e compactado não consegue absorvê-lo. A água corre pela superfície, arrasta tudo pelo caminho e colapsa as ribeiras. Resultado: inundações, carros a flutuar, perdas humanas.
Na Galiza: Se caíssem esses mesmos 200 mm no mesmo tempo (algo extremamente raro aqui), o resultado seria muito diferente:
- O solo esponjoso e ácido absorveria grande parte da água imediatamente.
- A orografia com pendentes distribuiria a água para os rios de forma gradual, não em torrente.
- Os leitos dos rios (Sar, Sarela, Tambre) estão dimensionados para grandes caudais. Não são ribeiras secas.
- A vegetação autóctone (quando existe) retém e filtra. As raízes são esponjas naturais.
Haveria problemas? Sim, seguramente. Seria a mesma catástrofe? Não. Porque este solo, este ecossistema, está desenhado por milénios para gerir água. O solo mediterrânico não está.
Essa é a diferença entre um clima estável e um solo adaptado, frente a um clima errático e um solo inadaptado.
4. As Testemunhas Literárias: Rosalía, Castelao e a Chuva Eterna
Rosalía de Castro escreveu a sua poesia encharcada de orvalho e névoa. Em "Follas Novas" (1880) e "Cantares Gallegos" (1863), a chuva não é uma anomalia: é o pano de fundo constante. Castelao desenhou a sua Galiza rural sob céus cinzentos em "Cousas" (1926) e "Nós" (1931).
Eles não escreviam sobre "eventos extremos". Escreviam sobre o clima de sempre. São a testemunha literária de há um século.
Se o clima tivesse mudado drasticamente, as suas descrições parecer-nos-iam anacrónicas, exóticas. Mas não: continuam a ser exatamente reconhecíveis. Até Valle-Inclán, nas suas "Sonatas" (1902-1905), descreve uma Galiza "húmida, verde e melancólica". Mesmo clima, mesma chuva, há mais de 120 anos.
5. O Dado Objetivo: A Pluviometria de Santiago (desde 1866)
A estação meteorológica de Santiago de Compostela regista dados desde 1866. Isso são 160 anos de dados contínuos.
O que mostram esses dados?
- Não há uma tendência clara para a diminuição da chuva anual.
- Há uma variabilidade enorme de um ano para outro (um ano seco, outro húmido).
- A média anual mantém-se persistentemente alta.
Esta é a prova numérica de que o regime de chuvas é estável.
6. O Design Urbano Medieval: Arcadas, Gárgulas e Empedrados
O centro histórico de Santiago é outra testemunha silenciosa do clima de sempre:
As Gárgulas da Catedral
As gárgulas da Catedral de Santiago (e de todas as igrejas românicas e góticas galegas) não são apenas decorativas. A sua função é projetar a água da chuva longe dos muros para evitar que a humidade eroda a pedra. Há dezenas delas. Não se instalam dezenas de gárgulas se a chuva é ocasional.
As Arcadas e Ruas Cobertas
As rúas do Franco, do Vilar, da Raíña... Muitas ruas do centro antigo têm arcadas (galerias cobertas) nos seus baixos. Porquê? Para que as pessoas possam caminhar protegidas da chuva constante. É arquitetura de adaptação ao clima húmido.
O Empedrado com Pendente
As ruas de Santiago estão empedradas com pedras de granito em forma de lombo de peixe, com pendente para os laterais. Cada rua tem canaletas laterais para evacuar a água. Este sistema medieval (alguns troços do século XII-XIII) continua a funcionar hoje. Porque foi desenhado para chuva permanente.
🪓 SEGUNDA PARTE: A Transformação Real
O que SIM mudou (e dói)
1. A Perda do Frescor: Os Carvalhais Abatidos
Os mais veteranos da conversa recordavam-no bem: nas romarias de verão da sua infância e juventude, o normal era pôr uma toalha sob os carvalhais centenários. Alguns falavam da romaria de San Lourenzo de Trasouto, outros da de San Paio de Antealtares. O camionista português contava histórias semelhantes das romarias do Minho.
Essas massas de carvalhos (carballos) criavam um microclima fresco, húmido e sombrio. Mesmo em agosto, sob a sua sombra, havia frescor. O solo estava coberto de folhada que se decompunha lentamente, alimentando o solo. As raízes retinham a água como uma esponja natural.
Esse microclima foi desaparecendo. Não por um ciclo climático. Pela mão do homem.
Os carvalhais abateram-se para ganhar terreno agrícola, para urbanizar, e sobretudo, para plantar outra coisa.
2. A Mudança que Todos Vimos: A Invasão do Eucalipto
Todos na mesa coincidimos: vimos a transformação da paisagem em tempo real. Do verde escuro do pinheiro e do carvalho ao verde prateado e sedento do eucalipto. O camionista foi especialmente claro: "Eu passo a vida a carregar essa madeira. Vejo o mesmo nos dois lados. A Galiza e o norte de Portugal fizeram exatamente o mesmo erro. E pelos mesmos motivos: a indústria papeleira." Alguém recordava como nos anos 60 e 70 se incentivava desde as instituições plantar eucalipto "porque crescia rápido e dava dinheiro".
Hoje, o eucalipto é a espécie arbórea mais estendida na Galiza. Não chegou sozinho. Foi incentivado por políticas de fomento para a indústria papeleira.
O Efeito Desertificador: O Golpe Técnico
O eucalipto não é "só mais uma árvore". Em monocultura densa, como se planta aqui, tem um efeito devastador:
- Alelopatia: Liberta substâncias químicas que envenenam o solo, matando a competição vegetal. Nada cresce sob um eucaliptal.
- Folhada tóxica: As suas folhas decompõem-se mal, acidificam ainda mais a terra e não nutrem o solo. Criam uma camada seca e inflamável.
- Raízes agressivas: Acumulam todos os recursos hídricos e nutricionais do solo. Secam o terreno circundante.
- Resultado final: Um solo mais ácido, mais pobre, mais seco e biologicamente morto. Perda da capacidade do solo para atuar como esponja. É o início de um processo de desertificação encoberta.
A ironia australiana: No seu habitat natural, na Austrália, o eucalipto é parte de um ecossistema equilibrado. Aqui, em monocultura densa e sem os seus reguladores naturais, é uma fábrica de solo estéril.
🌧️ Conclusão: A Ironia Final e a Lição
O Paradoxo Definitivo
É precisamente graças a que o clima atlântico galego NÃO mudou –a essa chuva obstinada e generosa– que não estamos perante uma paisagem desértica.
A experiência mental: Se este modelo de monocultura de eucalipto se aplicasse na Serra de Madrid, o resultado seria, em pouco tempo, terra yerma e erodida.
Na Galiza: A chuva atua como um remendo de urgência constante. Mitiga o dano, enxagua a acidez e dá a falsa sensação de que "aqui não passa nada". Estamos a jogar com a margem de erro que nos dá a chuva de sempre.
A Mensagem Final
- ✓ O nosso problema não é que o clima esteja a mudar para pior.
- ✓ O nosso problema, e a nossa sorte, é que o clima se manteve fiel a si mesmo.
- ✓ Essa fidelidade é o único colchão que temos contra as consequências de termos mudado nós, de forma tão radical, o bosque que nos protegia.
Da próxima vez que ouvirem um título alarmista, olhem à vossa volta. Olhem as pontes velhas, os espigueiros, a terra depois da chuva. A história, a arquitetura e o solo levam séculos a contar-nos a mesma verdade. Só é preciso saber escutar.
— António
Com a permissão dos que participámos nesta conversa
na terça-feira, 3 de fevereiro de 2026,
numa manhã chuvosa e fria